Porque não adotamos a Bíblia

Recebo sempre emails de pessoas muito amigas apesar de seguirmos caminhos religiosos diferentes, o que prova que se não nos pautarmos pelo fanatismo e sim pelo bom senso e respeito em nada é conflitante sermos de correntes religiosas diferentes.
Sempre entremeados de conversas leves e descontraidas,uma destas pediu a liberdade de adentrar em um ponto que sempre lhe trouxe curiosidade a respeito dos Umbandistas acerca de nosso ângulo de visão que observado por esta corrente religiosa de forma superficial a nossa posição, acreditam ser um elemento discordante que nos afastam deles entre outros menores:Por quê os Umbandistas não admitem a Bíblia?

Interessante!Nós admitimos a Bíblia como qualquer outra literatura religiosa ou filosófica porém não a adotamos incondicionalmente. Não admitir é uma posição perigosa que pode ser sinal de preconceito ou discriminação e os verdadeiros Umbandistas não nutrem tais sentimentos. Reconhecemos pontos filosóficos valorosos dentro da Bíblia desde o texto hebraico(Antigo Testamento) até os textos em grego e aramaico(Novo Testamento)que certamente enriquecem o espírito porém não o fazemos interpretando ao "pé da letra" como também usamos o discernimento necessário a qualquer leitura, inclusive as obras anunciadas como Umbandistas. Admitir nós admitimos como também o fazemos com o Torá,o Bardo Todol,o Alcorão,os Vedas ,o Madru,o Livro dos Mortos Egípcio, etc, só não os adotamos.

O que levaria os Umbandistas a não adotarem a Bíblia? A proibição de evocar os mortos?

(Lembrei-me, para um bom embasamento da forma como penso em sair do campo religioso que esta pessoa pertence ,do jesuíta americano Jack Miles , doutor em literatura em Harvard que recebeu o Pulitzer com sua obra " Deus-Uma Biografia" que após aprofundar-se um pouco,escolheu o título de EX -jesuíta por incompatibilidade da crença íntima com a crença imposta.Autor também da obra “ Cristo, uma Crise na Vida de Deus” que lhe rendeu o prêmio MacArthur Fellowship também conhecido por prêmio Genius ).
Pelo contrário pois esta proibição é de origem mosaica e não Divina e notadamente a Bíblia é totalmente baseada no contato com o plano espiritual, dos Anjos a evocação de Samuel,das aparições de Elias e Moisés no Monte Tabor até as do próprio Jesus após sua morte.O grande ponto discordante é a forma que a Bíblia apresenta Deus.

O Deus bondoso,lembra Jack Miles, que cria o mundo em 7 dias constatando que tudo é bom é o mesmo se desilude e irado expulsa Adão e Eva por uma desobediência que Ele com toda sua Onisciência não previu e ,de quebra, abandona seus atributos de ser soberanamente Justo e Misericordioso punindo toda a geração futura com a mácula do pecado original; Novamente sua Onisciência falha e sob nova decepção com sua criação, numa atitude de total descontrole emocional acaba com tudo o que fez com o dilúvio privilegiando uma família cujo patriarca,Noé, exibe atitudes no mínimo duvidosas quanto à retidão .

Não que aceitemos Adão e Eva, o dilúvio ou a criação em 7 dias pois podemos até ver a forma figurada da narração porém a descrição Divina é explícita.A Bíblia,continua Jack Miles, apresenta um Deus fruto da fusão completa e dramática dos dilemas humanos, uma única entidade com diversas identidades;Assim é um héroi libertador em Êxodo(por sinal um herói perverso que novamente pune inocentes),um tirano em Isaías,um conselheiro em Salmos (livro este que apresenta um certo grau de erotismo),um mero espectador no Livro de Rute ,um guerreiro conquistador em Josué,enigmático em Eclesiastes; Possuidor de atributos humanos condenáveis como a ira, o narcisismo e a vaidade, por vezes reagindo emocionalmente com decepção,tristeza e euforia,com preferências a uns em detrimento de outros.Infelizmente transfere-nos uma imagem de um ser com conflitos, dúvidas e crises tal qual o homem distante do mínimo da perfeição.Nas palavras de Jack Miles vem à sintetização:
“Iavé revela uma personalidade que oscila bastante em relação à sua criação – como no momento em que ordena o dilúvio, para tentar consertar tudo.”

Portanto não somos contra nada,apenas nos reservamos o direito de acreditar em um Deus Perfeito,Justo,Onisciente, Onipresente,Onipotente e Soberanamente Bom e Misericordioso , livre de qualquer traço que viria a macular seus Supremos Atributos.

Esta pessoa amiga disse que tinha bastante coisa para pensar e repensar mas eu a alertei a não condenar qualquer crença pois a culpa está em quem não reconhece o que é falso e aceita a mentira como verdade sem passar pelo crivo do bom senso, da lógica , do discernimento e da coerência e desta forma contribui para piorar a imagem que às vezes já não é muito boa espalhando ao vento suas fantasias obtidas por deficiencia de interpretação e estudo .Isto é válido para todos inclusive nós Umbandistas dentro de nossa própria Umbanda.

Anjo Ariano

Luz e Paz.

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