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Discurso de Allan Kardec sobre o Espiritismo, seus objetivos, suas práticas e a sua filosofia


Abaixo temos um discurso de Allan Kardec pronunciado nas reuniões gerais dos espíritas de Lyon e de Bordeaux, e publicado no livro Viagem Espírita em 1862. Recebi via e-mail de uma amiga e decidi, então, compartilhar com aquele leitor que está sempre manifestando interesse sobre o Espiritismo. É um discurso longo e com linguagem culta. Leia com calma e comente o que achou, pode ser? Creio que irá apreciar muito da mesma forma como o fiz!
Senhores e prezados irmãos espíritas,
Livro "Viagem Espírita"
Livro do qual foi extraído o discurso.
Não sois escolares em Espiritismo. Hoje colocarei, pois, de lado, questões práticas sobre as quais, devo reconhecer, estais suficientemente esclarecidos, para enfocar o problema sob uma perspectiva mais larga e, acima de tudo, em suas consequências. Este lado do assunto é grave, o mais grave incontestavelmente, pois que revela o objetivo para o qual tende a doutrina espírita e os meios para atingi-lo. Serei um pouco longo, talvez, pois o assunto é vasto, e, todavia, restaria ainda muito a dizer para completá-lo. Assim, solicitarei vossa indulgência considerando que, podendo permanecer um tempo muito restrito entre vós, sou forçado a dizer, de uma só vez, o que em outras circunstâncias poderia ser dividido em muitas partes.
Antes de abordar o ângulo principal do assunto, creio dever examiná-lo de um ponto de vista que me é, de certa forma, pessoal. Se se tratasse tão somente de uma questão individual, seguramente outra seria a minha atitude. Entretanto ela se prende a vários assuntos de caráter geral e disso pode resultar um esclarecimento de utilidade para toda gente. Esse foi o motivo que me levou a optar por tal iniciativa, aproveitando, assim, a ocasião para explicar a causa de certos antagonismos com que deparamos, não sem algum espanto, em nosso caminho.
No estado atual das coisas aqui na Terra, qual é o homem que não tem inimigos? Para não tê-los fora preciso não habitar aqui, pois esta é uma consequência da inferioridade relativa de nosso globo e de sua destinação como mundo de expiação. Bastaria, para não nos enquadrarmos na situação, praticar o bem? Oh, Não! O Cristo aí está para prová-lo. Se, pois, o Cristo, a bondade por excelência, serviu de alvo a tudo quanto a maldade pôde imaginar, como nos espantarmos com o fato de o mesmo suceder àqueles que valem cem vezes menos?
O homem que pratica o bem – isto dito em tese geral – deve, pois, preparar-se para se ferir na ingratidão, para ter contra ele aqueles que, não o praticando, são ciumentos da estima concedida aos que o praticam. Os primeiros, não se sentindo dotados de força para se elevarem, procuram rebaixar os outros ao seu nível, obstinam-se em anular, pela maledicência ou a calúnia, aqueles que os ofuscam. Ouve-se constantemente dizer que a ingratidão com que somos pagos endurece o nosso coração e nos torna egoístas. Falar assim é provar que se tem o coração fácil de ser endurecido, uma vez que esse temor não poderia deter o homem verdadeiramente bom. O reconhecimento já é uma remuneração pelo bem que se faz; praticá-lo tendo em vista esta remuneração, é fazê-lo por interesse. Por outro lado, quem sabe se aquele que beneficiamos, e do qual nada esperamos, não será estimulado a mais elevados sentimentos por um reto proceder? Este pode ser, talvez, um meio de levá-lo a refletir, de suavizar sua alma, de salvá-lo! Esta esperança constitui uma nobre ambição. Se nos inferiorizarmos, não realizaremos o que nos compete realizar.
Não podemos, entretanto, supor que um benefício, aparentemente estéril na Terra, seja para sempre improdutivo. É, muitas vezes, um grão semeado e que não germina senão na vida futura daquele que o recebeu. Muitas vezes temos observado certos Espíritos, ingratos como homens, tomados de emoção na espiritualidade, pelo bem que lhes foi feito. E essa lembrança, neles despertando pensamentos benéficos, facilita-lhes enveredarem para o caminho do bem e do arrependimento, contribuindo para abreviar seus sofrimentos. Só o Espiritismo poderia revelar este resultado da benevolência, só a ele está dado, pelas comunicações recebidas do além-túmulo, revelar o lado caridoso desta máxima: Um benefício nunca está perdido, substituindo o sentido egoísta que se lhe atribui. Mas, retornemos ao que nos concerne.
Pondo qualquer questão pessoal de lado, tenho adversários naturais nos inimigos do Espiritismo. Não creiais que me lamente! Longe disto! Quanto maior é a animosidade deles, melhor comprova a importância que a doutrina espírita assume aos seus olhos. Se se tratasse de algo sem consequências, uma dessas utopias que já nascem inviáveis, não lhe prestariam atenção. Não tendes visto escritos vasados em um tom de hostilidade que não se encontra nos meus, – quanto à ideologia, – e nos quais as expressões não são mais parcimoniosas do que o atrevimento dos pensamentos? Contra eles, todavia, não dizem uma única palavra! O mesmo se daria se as doutrinas que luto por difundir permanecessem circunscritas às páginas de um livro. Entretanto, – o que pode parecer mais espantoso, – é que tenho adversários mesmo entre os adeptos do Espiritismo: Ora, nesta área é que uma explicação se torna necessária.
Entre os que adotam as ideias espíritas há como bem sabeis três categorias bem distintas: 1. Os que creem pura e simplesmente nos fenômenos das manifestações, mas que deles não deduzem qualquer consequência moral;
2. Os que percebem o alcance moral, mas o aplicam aos outros e não a si mesmos;
3. Os que aceitam pessoalmente todas as consequências da doutrina e que praticam ou se esforçam por praticar sua moral.
Estes, vós bem o sabeis; são os VERDADEIROS ESPÍRITAS, os ESPÍRITAS CRISTÃOS. Esta distinção é importante, pois bem explica as anomalias aparentes. Sem isso seria difícil compreendermos as atitudes de determinadas pessoas. Ora, o que preceitua essa moral? Amai-vos uns aos outros; perdoai os vossos inimigos; retribuí o mal com o bem; não tenhais ira, nem rancor, nem animosidade, nem inveja, nem ciúme; sede severos para convosco mesmos e indulgentes para com os outros. Tais devem ser os sentimentos do verdadeiro espírita, daquele que se atém ao fundo e não à forma, do que coloca o espírito acima da matéria. Este pode ter inimigos, mas não é inimigo de ninguém, pois não deseja o mal a quem quer que seja e, com maiores razões, não procura fazer o mal a ninguém.
Este como vede senhores, é um princípio geral do qual toda a gente pode tirar um benefício. Se, pois, tenho inimigos, eles não podem ser contados entre os Espíritas desta categoria, pois, admitindo que tivessem motivos legítimos de queixa contra mim, o que me esforço por evitar, esse não seria um motivo para me odiarem e, com melhores razões se nunca lhes fiz qualquer mal. O Espiritismo tem por divisa: Fora da caridade não há salvação, o que equivale dizer: Fora da caridade não pode existir verdadeiros espíritas. Solicito-vos inscrever, daqui para frente, esta divisa em vossas bandeiras, pois ela resume ao mesmo tempo o objetivo do Espiritismo e o dever que ele impõe.
Estando, pois, admitido que não se possa ser um bom espírita com sentimentos de ódio no coração, eu me alegro de não ter amigos senão entre estes últimos, pois se eu cometer faltas eles saberão desculpá-las. Veremos, em seguida, a que imensas e férteis consequências conduz este princípio.
Vejamos então as causas que excitaram certas animosidades.
Desde que surgiram as primeiras manifestações dos Espíritos, muitas pessoas viram nisso um meio de especulação, uma nova mina a ser explorada. Se essa ideia seguisse o seu curso teríeis visto pulular por toda a parte médiuns e pseudo médiuns, oferecendo consultas a um dado preço por sessão. Os jornais estariam cobertos por seus anúncios e reclames. Os médiuns teriam se transformado em ledores da sorte e o Espiritismo se enquadraria na mesma linha da adivinhação, da cartomancia, da necromancia, etc. Nesse conflito, como poderia o público discernir a verdade da mentira? Pôr o Espiritismo a salvo, em meio a tal confusão não seria coisa fácil. Tornou-se imperioso impedir que fosse levado por essa via funesta. Era preciso cortar pela raiz um mal que o teria atrasado por mais de um século. Foi o que me esforcei por fazer, demonstrando desde o princípio a face grave e sublime dessa nova ciência, fazendo-a sair do caminho puramente experimental para fazê-la penetrar no da filosofia e da moral, mostrando, enfim, que haveria profanação em explorar a alma dos mortos, enquanto cercamos seus despojos de respeito. Desse modo, assinalando os inevitáveis abusos que resultariam de semelhante estado de coisas, eu contribui, e disso me glorifico, para descreditar a exploração do Espiritismo e, por isso mesmo, levar o público a considerá-lo como uma coisa séria e santa.
Creio ter prestado algum serviço à causa; mas se tivesse feito apenas isso já me felicitaria. Graças a Deus meus esforços foram coroados de êxito, não apenas na França, mas também no estrangeiro, e posso dizer que os médiuns profissionais são hoje raras exceções na Europa. Onde quer que minhas obras penetraram e servem de guia, o Espiritismo é visto sob seu verdadeiro ponto de vista, isto é, sob o ponto de vista exclusivamente moral. Por toda a parte os médiuns, devotados e desinteressados, compreendendo a santidade de sua missão, veem-se cercados da consideração que lhes é devida, qualquer que seja sua posição social. E essa consideração cresce na razão mesma da inferioridade da posição realçada pelo desinteresse.
Não pretendo absolutamente dizer que entre os médiuns profissionais não existem muitos que sejam honestos e dignos de consideração. Mas a experiência provou, a mim e a muitos outros, que o interesse é um poderoso estimulante à fraude, pois tem em mira o lucro; e se os Espíritos não colaboram, o que frequentemente ocorre, pois não estão por conta de nossos caprichos, a astúcia, fecunda em expedientes, encontra facilmente meio de supri-los. Para um que agisse lealmente haveria cem que abusariam e que prejudicariam a consideração do Espiritismo. Por outro lado os nossos adversários não descuidaram de explorar, em proveito de suas críticas, as fraudes que puderam testemunhar, disso concluindo que tudo no Espiritismo é falsidade e que urge, portanto, oporem-se a esse charlatanismo de um novo gênero. Em vão objeta-se que a doutrina não é responsável por tais abusos. Conheceis o provérbio: “Quando se deseja matar seu cão, diz-se que ele está raivoso”.
Que resposta mais peremptória se poderia dar à acusação de charlatanismo do que poder dizer: Quem vos convidou a vir? Quanto pagastes para entrar?. Aquele que paga quer ser servido; exige uma compensação pelo seu dinheiro; se não lhe é dado o que espera, tem o direito de reclamar. Ora, para evitar essa reclamação, cuida-se de servi-lo a qualquer preço. Eis o abuso, mas esse abuso que ameaça se tornar uma regra, ao invés de uma exceção, é preciso deter. Agora que uma opinião se formou a este respeito, o perigo não é de se temer senão para as pessoas inexperientes. Aqueles, pois, que se queixarem de ter sido enganados, ou de não haver obtido as respostas que desejariam, podemos dizer: “Se tivésseis estudado o Espiritismo saberíeis em que condições ele pode ser experimentado com frutos; saberíeis quais são os legítimos motivos de confiança e de desconfiança, o que, em suma, se pode dele esperar; e não teríeis pedido o que ele não pode dar; não teríeis ido consultar um médium como a um cartomante, para solicitar aos Espíritos revelações, conselhos sobre heranças, descobertas de tesouros e cem outras coisas semelhantes que não são da alçada do Espiritismo. Se fostes induzido em erro, deveis apenas culpar-vos a vós mesmos”.
É evidente que não se pode considerar uma exploração a cotização que se paga a uma sociedade para que enfrente as despesas da reunião. A mais vulgar equidade diz que não se pode impor esse gasto àquele que é convidado, se ele não é bastante rico, nem bastante livre com relação ao seu tempo para fazê-lo. A especulação consiste em se fazer uma indústria da coisa, a convocar o primeiro que chega, curioso ou indiferente, para ter seu dinheiro. Uma sociedade que assim agisse seria tão repreensível, mais repreensível ainda do que o indivíduo, e não mereceria nenhuma confiança. Que uma sociedade arque com todas as suas necessidades; que ela proveja a todas as suas despesas e não as deixe ao encargo de um só, isto é muito justo, e não há aí nem exploração, nem especulação. Todavia, já não seria o mesmo se o primeiro que se chegasse pudesse adquirir o direito de entrada, pagando-o, pois isto seria desnaturar o objetivo essencialmente moral e instrutivo das reuniões deste gênero, para delas fazer uma espécie de espetáculo de curiosidades. Quanto aos médiuns, eles se multiplicam de tal forma, que os médiuns de profissão seriam hoje completamente supérfluos.
Tais são, Senhores, as ideias que me esforcei por fazer prevalecer e confesso-me feliz por ter obtido êxito muito mais facilmente do que esperava. Mas, compreendei, aqueles que frustrei em suas esperanças não são meus amigos. Eis-nos, pois, em presença de um grupo que não me pode ver com bons olhos, o que, convenhamos, pouco me inquieta. Se nunca a exploração do Espiritismo tentou se introduzir em vossa cidade, eu vos convido a renegar essa nova indústria, a fim de não comprometerdes a vós mesmos com essa solidariedade e para que as censuras que se levantarem não venham a cair sobre a doutrina pura.
Ao lado da especulação material, há uma à qual poderíamos chamar especulação moral, isto é, a satisfação do orgulho, do amor próprio; aqueles que, sem interesse pecuniário, acreditaram ser possível fazer do Espiritismo um pedestal honorífico para se colocarem em evidência. Também não os favoreci, e meus escritos, assim como meus conselhos, contrapuseram-se a mais de uma premeditação, mostrando que as qualidades do verdadeiro espírita são a abnegação e a humildade, conforme a máxima do Cristo: “Aquele que se eleva será abaixado”. É a segunda categoria que não me quer mais bem, e a que se poderia chamar a das ambições frustradas e dos amores-próprios feridos.
Em seguida vêm as pessoas que não me perdoam por ter sido bem sucedido; para as quais o sucesso de minhas obras é uma causa de desgosto, que perdem o sono quando assistem aos testemunhos de simpatia que, espontaneamente, são-me dispensados. É o clã dos ciumentos, que não é mais benevolente, e que é reforçada pelas pessoas que, por temperamento, não podem ver um homem erguer um pouco a cabeça sem tentar um movimento para fazê-lo submergir.
Uma camarilha das mais irascíveis, acreditai, se encontra entre os médiuns, não pelos médiuns interesseiros, mas pelos que são muito desinteressados, materialmente falando; refiro-me aos médiuns obsedados, ou melhor, fascinados. Algumas observações a este respeito não serão sem utilidade.
Por orgulho, estão de tal forma persuadidos de que tudo o que recebem é sublime e só pode vir de Espíritos Superiores, que se irritam com a menor observação crítica, a ponto de se alterar com seus amigos quando estes têm a inabilidade de não admirar o que é absurdo. Nisto reside a prova da má influência que os domina, pois, supondo-se que, por falta de capacidade de julgamento ou de conhecimento não fossem capazes de enxergar claro, este não constituiria um motivo para se porem de prevenção contra os que não concordam com sua opinião; mais isso não agradaria os Espíritos obsessores que, para melhor manter o médium sob sua dependência, lhe inspiram o afastamento, a aversão mesma por quem quer que possa lhes abrir os olhos.
Há, em seguida, aqueles cuja susceptibilidade é levada ao excesso; que se melindram com a mínima coisa, com o lugar que lhes é dado numa reunião e não os coloca em bastante evidência, com a ordem estabelecida para a leitura de suas comunicações, ou com a recusa da leitura daquelas cujo tema não parece oportuno para uma assembleia; pelo fato de não serem solicitados, com bastante insistência, a dar o seu concurso; outros acham ruim porque a ordem dos trabalhos não é invertida para favorecer suas conveniências; outros gostariam de se colocar como médiuns titulares de um grupo ou de uma sociedade, ali fazer chover ou fazer sol, e que seus Espíritos diretores fossem tomados por árbitros absolutos de todas as questões, etc. etc. Esses motivos são tão pueris e tão mesquinhos, que não se ousa confessá-los. Mas nem por isso deixam de constituir uma fonte de surda animosidade que, cedo ou tarde, se trai, ou pelas malquerenças, ou pelo afastamento. Sem ter razões ponderáveis a oferecer, muitos põem de lado os escrúpulos e apresentam pretextos ou alegações imaginárias. O fato de, absolutamente, não me conformar a essas pretensões surge como um erro, ou melhor ainda, um crime aos olhos de algumas pessoas que, naturalmente, me deram as costas, gesto esse ao qual, mais uma vez reagi, a seu ver, erroneamente, não lhes dando maior importância. Imperdoável! Concebei esta palavra nos lábios de pessoas que se dizem espíritas? Essa palavra deveria ser riscada do vocabulário do Espiritismo.
Esse desagrado, a maior parte dos diretores dos grupos ou das sociedades, como eu, tem experimentado, e eu os convido a fazer como eu, isto é, a não dar importância a médiuns que antes constituem um entrave que um recurso; em sua presença está-se sempre pouco à vontade, com temor de os ferir com ações por vezes as mais insignificantes.
Este inconveniente foi, dantes, mais relevante do que agora. Quando os médiuns eram mais raros do que hoje, tinha-se de se contentar com aqueles de que se dispunha. Hoje, entretanto, que eles se multiplicam diante de nossos olhos, o inconveniente diminui em razão mesmo da escolha e à medida que se compenetra melhor dos verdadeiros princípios da doutrina.
Pondo-se de lado o grau da faculdade, as qualidades de um bom médium são a modéstia, a simplicidade e o devotamento; ele deve oferecer seu concurso tendo em vista ser útil e não para satisfazer a sua vaidade; não deve jamais ater-se às comunicações que recebe pois, de outra forma, poderia fazer crer que nelas põe algo de seu, algo que tem interesse em defender; deve aceitar a crítica, mesmo solicitá-la, e se submeter às advertências da maioria sem pensamento oculto; se o que ele escreve é falso, mau, detestável, é preciso que se lhe diga sem receio de feri-lo, e mesmo na certeza de que tal não ocorrerá. Eis os médiuns verdadeiramente úteis numa reunião e com os quais nunca teremos motivos de descontentamentos, pois bem compreendem a doutrina. São esses também que recebem as melhores comunicações, uma vez que não se deixam dominar por Espíritos orgulhosos. Os Espíritos mentirosos os receiam, pois se reconhecem impotentes para deles abusar.
Em seguida vem a categoria das pessoas que jamais estão contentes; umas acham que vou muito rápido, outras com muita lentidão; é verdadeiramente a fábula do Moleiro, seu filho e o asno. Os primeiros reprovam-me por haver formulado princípios prematuros, de me colocar como chefe de uma escola filosófica. Mas acontece que, pondo-se a ideia espírita à parte, não poderia eu acaso arrogar-me, como tantos outros, a autoria de um sistema filosófico, fosse este o mais absurdo? Se os meus princípios são falsos, por que não apresentam outros que os substituam, fazendo-os prevalecer? Ao que parece, entretanto, de modo geral eles não são julgados irracionais, já que encontram aderentes em tão grande número. Mas, não será exatamente isso que excita o mau humor de certas pessoas? Se esses princípios não encontrassem partidários, se fossem ridículos a partir do primeiro enunciado, seguramente deles não se falaria.
Os segundos, que pretendem que não vou bastante rapidamente, desejariam me empurrar, com boa intenção, quero crer, pois é sempre melhor pressupor o melhor que o pior, num caminho em que não quero me arriscar. Sem, pois, me deixar influenciar seja pelas ideias de uns, seja pelas de outros, sigo a rota que eu mesmo tracei: tenho um objetivo, vejo-o, sei como e quando o atingirei e não me inquietam os clamores dos que passam por mim.
Crede, Senhores, as pedras não faltam em meu caminho. Passo por cima delas, mesmo das mais altas e pesadas. Se se conhecesse a verdadeira causa de certas antipatias e de certos afastamentos, muitas surpresas nos aguardariam. É preciso acrescentar as pessoas que são postas, relativamente a mim, em posições falsas, ridículas e comprometedoras e que procuram se justificar, em última instância, recorrendo a pequenas calúnias; os que esperavam atrair-me a eles pela adulação, crendo poder levar-me a servir aos seus desígnios e que reconheceram a inutilidade de suas manobras para atrair minha atenção; aqueles que não elogiei nem incensei e que isso esperavam de mim; aqueles, enfim, que não me perdoam por ter adivinhado suas intenções e que são como a serpente sobre a qual se pisa. Se todas essas pessoas decidissem se colocar, por um instante sequer, em uma posição extraterrena e ver as coisas um pouco mais do alto, compreenderiam bem a puerilidade de quanto as preocupa e não se espantariam com a pouca importância que a tudo isso dão os verdadeiros espíritas. É que o Espiritismo abre horizontes tão vastos, que a vida corporal, curta e efêmera, se apaga com todas as suas vaidades e suas pequenas intrigas, ante o infinito da vida espiritual.
Não devo, entretanto, omitir uma censura que me foi endereçada: a de nada fazer para trazer de novo a mim as pessoas que se afastam. Isso é verdadeiro e a reprovação fundamentada; eu a mereço, pois jamais dei um único passo nesse sentido e aqui estão os motivos de minha indiferença.
Aqueles que vêm a mim, fazem-no porque isto lhes convém; é menos por minha pessoa do que pela simpatia que lhes desperta os princípios que professo. Os que se afastam fazem-no porque não lhes convenho ou porque nossa maneira de ver as coisas reciprocamente não concorda. Por que, então, iria eu contrariá-los, impondo-me a eles? Parece-me mais conveniente deixá-los em paz. Ademais, honestamente, falta-me tempo para isso. Sabe-se que minhas ocupações não me deixam um instante para o repouso, e para um que parte, há mil que chegam. Julgo um dever dedicar-me, acima de tudo, a estes e é isso que faço. É orgulho? Desprezo por outrem? Oh, seguramente, não! Eu não desprezo ninguém; lamento os que agem mal, rogo a Deus e aos Bons Espíritos que façam nascer neles melhores sentimentos, eis tudo. Se eles retornam, são sempre bem-vindos, mas correr atrás deles, jamais o faço, em razão do tempo que de mim reclamam as pessoas de boa vontade; em segundo lugar, porque não ligo a certas pessoas a importância que elas dão si mesmas. Para mim, um homem é um homem, isto apenas! Meço seu valor por seus atos, por seus sentimentos, nunca por sua posição social. Pertença ele às mais altas camadas da sociedade, se age mal, se é egoísta e negligente de sua dignidade é, a meus olhos, inferior ao trabalhador que procede corretamente, e eu aperto mais cordialmente a mão de um homem humilde, cujo coração estou a ouvir, do que a de um potentado cujo peito emudeceu. A primeira me aquece, a segunda me enregela.
Personagens da mais alta posição honram-me com sua visita, porém nunca, por causa deles, um proletário ficou na antecâmara. Muitas vezes, em meu salão, o príncipe se assenta ao lado do operário. Se se sentir humilhado, eu direi que ele não é digno de ser espírita. Mas, sinto-me feliz em dizer, eu os vi, muitas vezes, apertarem-se as mãos, fraternalmente, e, então, um pensamento me ocorria: “Espiritismo, eis um dos teus milagres; este é o prenúncio de muitos outros prodígios!”
Dependeria de mim abrir as portas do grande mundo; jamais fui nelas bater; isso me tomaria um tempo que creio poder empregar mais utilmente. Eu coloco em primeira instância as consolações que é preciso dar aos que sofrem; levantar a coragem dos abatidos, arrancar um homem de suas paixões, do desespero, do suicídio, detê-lo talvez no limiar do crime; não vale mais isto do que os lambris dourados? Tenho milhares de cartas que para mim mais valem do que todas as honrarias da Terra e que vejo como meus verdadeiros títulos de nobreza. Não vos espanteis se deixo ir aqueles que me dão as costas.
Tenho adversários, eu o sei; mas o número deles não é tão grande quanto se poderia crer segundo a enumeração que fiz; eles se encontram nas categorias que citei, mas são apenas individualidades, e o número é pouca coisa comparado aos que desejam testemunhar-me simpatia. Aliás, eles jamais conseguiram perturbar minha tranquilidade; jamais suas maquinações nem suas diatribes me emocionaram; e devo acrescentar que essa profunda indiferença de minha parte, o silêncio que oponho aos seus ataques, não é o que os exaspera menos. Por mais que façam, jamais conseguirão fazer-me sair da moderação e da regra que tenho por conduta. Nunca se poderá dizer que respondi à injúria com injúria. As pessoas que me conhecem na intimidade sabem que jamais me ocupo com eles; que na Sociedade jamais foi dita uma única palavra, foi feita uma única alusão relativamente a qualquer um deles. Mesmo pela Revista jamais respondi às suas agressões, quando dirigidas à minha pessoa, e Deus sabe que elas não têm faltado!
Ademais, de que adianta seu malquerer? De nada! Nem contra a doutrina nem contra mim. A doutrina espírita prova, por sua marcha progressiva, que nada tem a temer. Quanto a mim, não ocupo nenhuma posição, por isso nada existe que me pode ser tirado; não peço nada, nada solicito e, assim, nada me pode ser recusado. Não devo nada a ninguém, desse modo nada há que me possa ser cobrado; não falo mal de ninguém, nem mesmo daqueles que o dizem de mim. Em que poderiam, então, prejudicar-me? É certo que se pode atribuir a mim o que eu não disse e isso já se fez mais de uma vez. Mas, aqueles que me conhecem são capazes de distinguir o que digo daquilo que não sou capaz de dizer e eu agradeço a quantos, em semelhantes circunstâncias, souberam responder por mim. O que afirmo, estou sempre pronto a repetir, na presença de quem quer que seja, e quando afirmo não ter dito ou feito uma coisa, julgo-me no direito de ser acreditado.
Aliás, o que são todas essas coisas em face do objetivo que nós, Espíritas sinceros e devotados, perseguimos juntos? Desse imenso futuro que se desenrola diante dos nossos olhos? Acreditai-me, Senhores, fora preciso ver como um roubo feito à grande obra, os instantes que perdêssemos preocupados com essas mesquinharias. De minha parte agradeço a Deus por me haver, já aqui na Terra, concedido tantas compensações morais ao preço de tribulações tão passageiras, bem como pela alegria de assistir ao triunfo da doutrina espírita.
Peço-vos perdão, Senhores, por vos haver, por tão longo tempo, entretido com assuntos relativos a mim, mas acredito útil estabelecer nitidamente a posição, a fim de que vos seja possível saber em quem vos ater conforme as circunstâncias, e para que estais bem convencidos de que minha linha de conduta está traçada e que dela nada me fará desviar. De resto, creio que destas observações mesmas, fazendo abstração da pessoa, poderão resultar alguns ensinamentos úteis.
(Allan Kardec, reuniões gerais dos espíritas de Lyon e de Bordeaux, e publicado no livro Viagem Espírita em 1862.)
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O VAMPIRISMO EM ALGUNS LOCAIS DO MUNDO.

ÍNDIA. A Índia é um dos locais que, juntamente com o Egito e a China, tem mais elementos para esclarecer o fenômeno dos Vampiros. Asuras, Rakshasas e mais uma infinidade de seres vampíricos fazem parte da mitologia indiana, sem falar em várias divindades que têm facetas vampíricas evidentes, como a deusa Kali e seu marido Shiva. Os Rakshasas habitavam locais de cremação, onde inúmeros cadáveres eram cremados. Estavam sempre prontos a atrapalhar a consecução espiritual dos ascetas. Datam da era védica, seu líder é Ravana, de dentes pontiagudos e olhos sinistros, inimigo de Rama. Eles portam unhas longas e venenosas, sua aparência é feroz, sua cor é o azul escuro, mas podem ser verdes ou amarelos. Os Rakshasas são senhores de grandes tesouros, guardiões de templos e palácios. Vagavam à noite em busca de sangue de crianças, em especial dos recém-nascidos. Também gestantes faziam parte de suas principais vítimas. Eles se faziam acompanhar muitas vezes por sacerdotisas, que participavam de seus sangrentos banquetes, as Hatu Dhana. Além dos Rakshasas, Asuras e as Hatu Dhana, havia os Pisashas; eles se alimentavam dos restos da cremação e transmitiam inúmeras calamidades. Outra classe de seres Vampiros era a dos Bhutas, o espectro dos mortos. Os candidatos principais a se tornarem Bhutas eram os que padeciam por morte antinatural, suicídio ou execução; eram loucos, portadores de alguma moléstia ou deformados. Transformavam-se, após a morte, em mortos-vivos. Em certas localidades da Índia, aqueles que morrem de maneira semelhante às descritas são sepultados ao invés de cremados. De forma alguma isso se restringe à Índia, já que em praticamente todo o mundo pessoas que sofreram morte violenta ou tiveram má índole são fortes candidatos a Vampiros. Os Bhuta se alimentam de fezes e intestinos encontrados em corpos decompostos. E também promovem doenças nos seres humanos, uma forma de gerar o seu alimento. Eles também vivem perto do local de cremação, transformam-se em corujas e morcegos, mas igualmente aos Rakshasas atacam recém-nascidos. Podem obsediar uma pessoa, e a pessoa assim obsediada viria a atacar outras, devorando-as. Sir Richard Burton, um dos mais importantes aventureiros do século XIX, contam-nos a história do livro Vetala Pachisi, os vinte e cinco contos de um Baital. O narrador destas vinte e cinco histórias é um Baital, um Vampiro, um ser que se apossava do corpo de um morto para executar suas atividades vampíricas. Esse livro trata da história de um gigantesco morcego negro, vampiro ou espírito maligno que habitava e animava cadáveres. É uma lenda antiga, cujo estilo de narrativa influenciou As Mil e Uma Noites, O Asno de Ouro, de Apuleio, e o Decameron e o Pentameron, de Giovanni Boccaccio. Essa narrativa tem como personagem o Rei Vikram, que teve seu reinado por volta do século I. “O ser pendia de cabeça para baixo, seus olhos, que estavam arregalados, eram de um castanho esverdeado e nunca piscavam. Seus cabelos também eram castanhos, e castanho era seu rosto. Três matizes diferentes combinadas lembravam um coco seco. Tinha o corpo magro e cheio de nervuras, como um esqueleto ou um bambu. Estava pendurado em um galho como um morcego, pela ponta dos dedos, e seus músculos contraídos ressaltavam como cordas de fibra.” “Não parecia ter uma gota de sangue sequer, ou esse estranho líquido devia ter escoado para a cabeça; quando o Raja (Vikram) o tocou, a pele era fria como o gelo e viscosa como a de uma serpente. O único sinal de vida era o agitar furioso de uma pequena cauda, como a de um bode. O bravo Rei deduziu, um Baital, um Vampiro, um Vetala Pancha Vishnati!” (Baital é a forma moderna de Vetala). Encurtando a narrativa, Vikram faz inúmeras tentativas de capturar o vampiro, mas este é esperto, e contando inúmeras histórias consegue sempre voltar a sua árvore. Por fim, o Raja o leva até um Yogue que estava esperando por eles perto de um crematório. A área era cheia de hienas, abutres e assombrada por espectros. O vampiro havia se apossado do corpo de um jovem, e, ao se aproximar do Yogue, mas não tão perto para que este pudesse ouvi-lo, avisou o Rei Vikram de que o Yogue na verdade era um gigante monstruoso disfarçado. Após dizer isso, o vampiro abandonou o corpo do jovem, que voltou a ser um corpo normal. O Rei ficou em dúvida a respeito do que o vampiro havia falado. Ele tomou parte nas cerimónias do Yogue a contragosto, sempre esperando o pior, e graças a isso foi salvo. De fato, o Vampiro falara a verdade. O Vetala é um demônio vampiro com características de semideus. Ocasionalmente, o Vetala pode promover a possessão de um cadáver, animando-o para suas práticas hematófagas. POVO CIGANO. Os ciganos são originários da Índia, possivelmente descendentes dos dravidianos, povo autóctone, expulso pelos arianos do Norte da Índia. Os dravidianos são os pais do Yôga e do Tantra; sua civilização era matriarcal e Shiva era sua divindade principal. Ao perderem a guerra contra os invasores, eles migraram para o sul da Índia, mantendo os seus conhecimentos em sociedades secretas. Da sua terra natal, os ciganos trouxeram Sara, Santa Sara, ou melhor, Kali. Tanto ela, como seu marido Shiva, são retratados na arte hindu em actos vampíricos, e nessas representações há ainda um forte apelo sexual, de uma forma muito comum aos Vampiros. A Índia, como já vimos, conta também com inúmeros seres vampíricos. Os ciganos Começaram sua migração por volta do ano 1000 da era vulgar (Cristã), e por volta do século XIV já eram vistos no Ocidente, após uma estadia na Turquia. Duas teorias sobre a origem da designação “cigano” são a do egiptano, ou seja, egípcio, derivando em gitano, ou a que faz alusão aos atzigani, seita herética do Oriente Médio. Para Voltaire, eles eram cultuadores da deusa Ísis vindos da Síria. Muito curiosa foi essa associação com os egípcios, já que os ciganos chegaram à Europa sem passar pelo Egipto. Talvez isso seja uma menção ao pequeno Egipto na Grécia, ou esse lugar tenha esse nome justamente devido aos ciganos. Os gregos desde sempre tiveram os egípcios como grandes mágicos e adivinhos; será que notaram essas características quando os ciganos foram seus hóspedes? Curiosamente, os locais onde os ciganos tiveram influência mais proeminente estão no epicentro dos casos de Vampirismo que varreram a Europa no século XVIII. Já em 1700 há relatos na Grécia sobre a atuação de Vampiros (Vrykolakas). O termo é de origem eslava, e igualmente no Império Austríaco são registrados casos amplamente documentados. Por mais que esses casos tenham o século XVIII como foco, eles não foram tratados como novidade pelas populações dos locais onde se desenrolaram o que faz pensar que não era algo incomum. Os ciganos, como os egípcios, tinham ritos de oferenda de alimentos aos mortos. Em troca, pediam sua proteção e outros favores. Eles também tinham uma espécie de feiticeiro (xamã) chamado Kaku, que tinha posse do poder de domar animais sem o uso da força, através do conhecimento dos poderes hipnóticos, incluindo o uso do terceiro olho. Ao que parece, eles guardaram a sabedoria ancestral indiana, incluindo a cerimônia do Maithuna indiano, uma união sexual tântrica. O casal se uniria para este fim, muitas vezes não se vendo nunca mais. Seu objectivo era a harmonia dos opostos e o êxtase místico. Fazem uso de um asana, como o da Yôga, e exercícios com os olhos (tratakas). Eles crêem que o corpo humano é entrecortado de canais que levam energia para os mais diversos pontos, e disso se deriva uma técnica usada em curas que também pode despertar intenso desejo sexual. Um fato curioso é que os Kakus ciganos têm especial respeito por Jacques de Molay, o último Grão Mestre Templário. O porquê disso é uma boa pergunta, mas a lenda fala que Molay esteve em contacto com eles no Oriente, em busca de conhecimento mágico. Os ciganos, em muitos locais, foram tratados como heréticos, bruxos e vampiros. Sofreram com fogueiras e torturas, além de não poderem ser enterrados nos cemitérios comuns, dentre outras coisas. Como já vimos, os ciganos são místicos por natureza, e seu universo é recheado de seres imaginários e mágicos. Os Vampiros têm um lugar de destaque na religiosidade cigana, sendo que havia até a profissão de “caçador de vampiros” (Dhampir). Esse caçador era filho de um Vampiro, um elo entre o humano e o vampírico. Os ciganos acreditavam que o Vampiro poderia gerar filhos mesmo depois de morto, e alguns Vampiros inclusive teriam constituído novas famílias. Como em outras culturas e nos casos de “almas” presas a Terra (ver o capítulo “duplo etérico e corpos sutis”), o Vampiro era fruto de morte violenta, falhas no sepultamento ou ainda influência de animais sobre o corpo do morto; assuntos não terminados também eram relevantes. O Mulo era a forma mais conhecida de vampiro cigano, um morto-vivo que atacava durante a noite e voltava ao amanhecer para sua sepultura. Como a maior parte de todos os vampiros ele era um ser etéreo. Podia assumir várias formas animais, e seus ataques dizimaram algumas famílias e inúmeras cabeças de gado. Alguns relatos sobre o Mulo mencionam as relações sexuais entre o Vampiro e sua esposa, ou amante, ainda viva. Essas relações poderiam ir das mais calmas às mais violentas. O Mulo poderia gerar filhos dessas uniões, e eles eram vampirovic, vampiro filho, ou lampirovic, pequeno vampiro, em idioma sérvio-croata. ROMA. No Império Romano, o vampiro era uma bruxa que, em forma de coruja, atacava crianças para sugar seu sangue. Elas eram chamadas de Strix, o que culminou em strega, italiano para bruxa. A strega, mesmo durante o Império Romano, já tinha características vampirescas. Voava à noite, sugava o sangue de crianças e se envolvia sexualmente com homens que acabavam drenados. Muito do que foi usado no combate ao Vampiro foi também usado contra a strega, tanto é que Carlos Magno teve de promulgar uma lei que proibia queimar ou canibalizar stregas. Ambas as práticas foram adaptadas contra o vampiro, inclusive comer pedaços dele como forma de cura. O lobisomem também foi um fenômeno conhecido em Roma e na Itália. No Império Romano, o vampiro era uma bruxa que, em forma de coruja, atacava crianças para sugar seu sangue. Elas eram chamadas de Strix, o que culminou em strega, italiano para bruxa. A strega, mesmo durante o Império Romano, já tinha características vampirescas. Voava à noite, sugava o sangue de crianças e se envolvia sexualmente com homens que acabavam drenados. Muito do que foi usado no combate ao Vampiro foi também usado contra a strega, tanto é que Carlos Magno teve de promulgar uma lei que proibia queimar ou canibalizar stregas. Ambas as práticas foram adaptadas contra o vampiro, inclusive comer pedaços dele como forma de cura. O lobisomem também foi um fenômeno conhecido em Roma e na Itália. ARÁBIA E OS MUÇULMANOS. Os muçulmanos têm algumas entidades vampíricas, dentro elas os Ghouls. Ghouls são seres de forma feminina que assombram sepulcros, atacam e devoram seres humanos. São similares à Lilith, ou seja, um demónio feminino que se alimenta de corpos mortos, infestando cemitérios. Escavam as tumbas para devorar as carcaças. Muitas vezes esses Ghouls eram tidos como metade mulher, mantendo uma vida marital sem que o esposo soubesse o que ocorria. Ele atraía suas vítimas até uma ruína deserta, para então sugar o sangue de suas veias e comer sua carne. Nas Mil e Uma Noites, há uma passagem que trata exatamente sobre o Ghoul. Um rapaz se casa com uma jovem de nome Amine, e ao jantarem ele nota que ela come muito pouco, nem o suficiente para um pardal. O marido observa que ela se ausenta à noite, até que um dia a segue. Ela entra em um cemitério, e o marido se esconde atrás de uma parede, com visão suficiente do cemitério e do local para onde sua esposa ia. Para sua surpresa, ela se metamorfoseia num Ghoul, e outros desses seres se aproximam para uma reunião que acontece bem ali. Ela e outros Ghouls desenterram um corpo, e prontamente o dividem em bocados devorados por todos. Os Ghouls, com grande compostura, travavam uma conversa em meio ao seu festim diabólico. Talvez mais fantástico que o prato principal, tenha sido o tema da conversa. O marido, de seu esconderijo, podia ver mas não ouvir o que se passava. Ao término, lançaram a carcaça de volta à sepultura e a enterraram. Sidi Nouman (o marido), esperou o próximo jantar com a esposa, que mais uma vez mal tocava os alimentos. Ele perguntou se a carne de um homem morto era mais saborosa que o jantar. O Ghoul se enfureceu e jogou uma maldição sobre Sidi, transformando-o num cachorro. Através das artes mágicas de outra mulher, ele volta à forma humana e ainda ganha uma poção mágica destinada à sua esposa. Quando se defronta com Amine, lança a poção nela com a seguinte frase: “Receba o castigo da maldade”. A feiticeira é transformada em uma égua, e imediatamente conduzida a um estábulo. Na Turquia, alguns Dervixes eram caçadores de vampiros. Eles podiam ver o espectro do morto e caçá-lo. O seu equipamento consistia em uma longa barra de ferro ter minada em ponta aguçada. Juntamente com eles, na profissão, havia os Sabbatarians, pessoas que haviam nascido no sábado, “um dia especial”. Estes dois tipos de caçadores também eram encontrados na Macedônia. Em uma dessas caçadas um Sabbatarian, perseguido por um vampiro, entra em um celeiro. Sabendo da compulsão natural dos vampiros por contar, ele espera o vampiro se defrontar com os cereais. Aproveitando a distração do vampiro, ele o destrói. GRÉCIA. A Grécia e a sua rica mitologia são um campo vasto para o estudo do fenômeno do vampirismo. As Lâmias, Empusas, Mormo e a própria Hécate são representantes clássicos desse fenômeno e suas histórias se perdem nos séculos. A Lâmia é um ser vampírico dos mais antigos. Após a perda de seus filhos, Lâmia, uma bela mulher, foi tomada de ódio absoluto e vingou-se de toda a raça humana atacando crianças e sugando-lhes o sangue, história muito similar à de Lilith. Esse espectro feminino também se revestia de sedução. Quando as vítimas eram rapazes, o demônio aparecia como uma bela mulher. A história de Menippus é um bom exemplo. Ele conhece uma bela moça, em verdade Lâmia, cujo prazer era se alimentar de jovens corpos, com sangue puro e forte. Apuleio, em Metamorfoses, narra em uma passagem que as feiticeiras da Tessália podiam assumir a forma de qualquer animal. No caso em questão, Telefron, um estudante, tinha sido incumbido da tarefa do guardar um cadáver para que as feiticeiras não dilacerassem com seus dentes a face do morto. A Stringla, uma espécie de vampiro feminino especialista em drenar sangue de crianças, como espírito da noite, vinha e atacava as crianças. A volta do reino dos mortos não era de forma alguma algo desconhecido para os gregos. O poder do sangue como agente materializador era também por eles conhecido. Ulisses encheu uma cova de sangue para propiciar o aparecimento de Tirésias, um vidente, com sangue fresco nutriu a aparição ajudando-a a adensar-se, e outros espectros lambem se materializaram valendo-se desse sangue. Pausânias, no século II, já mencionava a lei grega que mandava queimar os cadáveres de quem quer que fosse acusado de visitar seus parentes após a morte. A esse solo fértil foi agregada a cultura eslava, que principia por volta do século VI sua entrada na Grécia. A Grécia conta com inúmeros relatos de atividade vampírica. O vampiro grego mais conhecido é o Vrykolakas. O termo é de origem eslava e possivelmente se refere a algum ritual em que o sacerdote utilizava uma pele de lobo. Bem entendido que, para os gregos, o licântropo não era, de forma alguma, uma novidade. O Vrykolakas, para os gregos, era o morto-vivo. Tinha a aparência de quando estava vivo, e podia também entrar em corpos de animais ou assumir as suas formas. Por mais que os vampiros do leste europeu tenham uma fama enorme, a maioria dos casos de vampirismo ocorreu na Grécia. Quem é atacado por um Vrykolakas se torna invariavelmente um deles. O Vrykolakas é um dos vampiros mais vorazes e selvagens, e em seus ataques rápidos e assassinos rasgam a carne com os dentes para se banquetear com o sangue. O nome Vrykolakas talvez também seja uma referência à licantropia. No folclore eslavo, lobisomens se tornam vampiros após a morte. Há referências (escassas, todavia) de lobisomens gregos que se tornaram vampiros (Vrykolakas) após sua morte. Os Vrykolakas não atravessavam água, por isso muitos foram mandados para ilhas desertas na esperança de que por lá ficassem. Essa prática foi usada em Hidra, Kythnos e Mitilene. “A ilha de Hidra antigamente havia sido infestada por vampiros, e um Bispo se livrou deles ao mandá-los para Therásia, uma ilha desabitada, pertencente ao arquipélago de Santorini, onde eles ainda caminham à noite, mas não podem cruzar a água salgada”. Em outros locais da Grécia, em especial em pequenas ilhas, o vampiro é conhecido como Vurvukalas, Vrukolakas, e os cretenses o chamam Kathakanas. O Vrykolakas era essencialmente noturno, mas suas histórias incluem manifestações em plena luz do dia. Sábado era o dia em que o Vrykolakas ficava em sua tumba. Justamente no sábado eram exumados os corpos dos suspeitos. Uma cerimônia de exorcismo era levada a cabo, e o corpo era removido para alguma ilha distante ou queimado. O Vrykolakas muitas vezes se comporta como um poltergeist, destruindo mobília, produzindo sons e mais inúmeras manifestações associadas. Ele também pode voltar para viver com a viúva, e até mesmo empreender as tarefas mais comuns e tranqüilas. O vampiro grego por vezes visitava a viúva após a morte, e há relatos de crianças geradas desta forma; ele também podia mudar para outra cidade, onde constituía família. Na Grécia, o vampirismo era herdado. Crianças filhas de vampiros poderiam ser vampiros, ou caçá-los. CHINA. A China é uma das possíveis pátrias dos vampiros. O mais importante nesse país é que os vampiros são encontrados há mais de 2600 anos, já que em 600 a.C. já havia relatos de vampiros em solo sino. Na China, um dos vampiros que mais nos chama a atenção é o chiang-shih, com unhas muito longas, cabelos brancos com tons de verde e olhos avermelhados. Esse vampiro podia voar, mas, como o grego, não atravessava água e deveria voltar à sepultura após suas atividades, como um morto-vivo. Tinha igualmente capacidade de se metamorfosear em animais, em especial em lobo. Era destruído pelo fogo, e o cadáver passava também por cerimônias de exorcismo. Para os chineses, um demônio se apossava da alma do defunto, causando a incorruptibilidade do corpo, e levando-a ao vampirismo. Ainda segundo os chineses, o ser humano tem duas almas: a Run, ou alma superior, e a P’o, ou alma inferior. Uma teria aspectos mais elevados, a outra, aspectos animais. Essa alma inferior era a causa do vampirismo, e qualquer ínfima parte do defunto poderia guardar o vampiro. Os chineses também têm várias histórias de crânios que falavam, e eram animados pela alma P' o do defunto, causando inúmeros problemas. O Vampiro na China, como em outras partes do mundo, é ativo ao cair a noite, voltando à sua sepultura ao raiar da aurora. Uma lenda chinesa trata da volta dos mortos e da destruição advinda disso. Um funcionário do governo chinês, Chang Kuei, estava em viagem quando, em dado momento, um temporal se abateu. Ele se refugiou em uma casa. Lá, encontrou uma bela dama. A princípio tomaram chá, para mais tarde se unirem numa torrente de paixões. Ao despertar, no dia seguinte, qual não foi a sua surpresa ao se encontrar sobre a lápide de uma tumba, com seu cavalo a alguns metros dali. Ele o montou e saiu a toda brida pela estrada. Ao chegar a seu destino, foi interrogado devido à demora, e seu relato revelou onde estava a tumba de uma jovem prostituta que havia se enforcado. O fantasma dela havia seduzido inúmeras vítimas. O clamor dessa história chegou aos ouvidos do magistrado da região, que mandou abrir a tumba, onde o cadáver foi encontrado como se estivesse a dormir. Cremaram-no imediatamente. Curiosamente, após a destruição do corpo da vampira, uma seca que grassava a região teve fim. Outra história de vampiros na China é a que se segue. Uma mulher foi acordar seu marido e, ao entrar em seu quarto, viu-o sem cabeça. Não havia uma gota de sangue em nenhum lugar, o que era muito estranho devido à decapitação, que faria o quarto estar encharcado de sangue. Ela chamou as autoridades e foi detida como a principal suspeita, apesar de alegar inocência. Algum tempo depois, um lenhador encontrou um caixão semi-escondido pela vegetação, mas com a tampa parcialmente levantada. Ele ficou tomado de receio e chamou várias pessoas para juntos averiguarem o conteúdo. Dentro estava um cadáver, mas com aspecto de vivo, e tinha um semblante horripilante. Sua boca tinha dentes pontiagudos e vertia uma espuma avermelhada. Nas suas mãos estava a cabeça do marido infeliz. Eles chamaram as autoridades; um guarda armado veio rápido, antes do pôr-do-sol. Os braços do vampiro tiveram que ser cortados para libertar a cabeça, e o sangue escorreu em profusão. Tudo foi queimado, e a mulher liberta. MALÁSIA Na Malásia encontramos uma infinidade de vampiros; até os dias de hoje eles se fazem presentes no folclore. Um tipo de vampiro malaio está associado à atividade de um feiticeiro, que faz seus ataques enquanto dorme. O Mauri (a designação deste tipo de vampiro) entra sorrateira casa adentro até o peito de sua vítima, onde chupa o sangue. Esse feiticeiro pode continuar suas atividades após a morte, pois há casos de cadáveres que adotaram essa conduta. Outros vampiros são o Bajang e o Langsuir. O Bajang lembra um furão enquanto o Langsuir é similar à Strix Romana. Para libertar-se dos ataques do Bajang, uma curandeira é chamada. A vítima sofre convulsões, delírios e mais uma infinidade de mazelas. A curandeira induzirá a vítima, no momento do suposto ataque, ao relatar o que está ocorrendo, e dessa forma detectará o vampiro. Sendo confirmado o vampiro, este era morto, mas, com a dominação britânica, a execução foi proibida. O Langsuir é uma mulher que morreu no parto, sendo que o Langsuir original adquiriu o vampirismo ao ver que seu bebê havia nascido morto. Quando uma mulher morria no parto, ao ser enterrado, ovos foram colocados embaixo de suas axilas, suas mãos eram fixadas com agulhas e contas colocadas em sua boca. Dessa forma, tinha-se a crença que ela não se transformaria em vampira. Outras formas de vampiros eram o Penanggalan e o Pontianak. O Pontianak é um natimorto como o Ustrel descrito por James Fraser. Aparece também como uma coruja, fazendo par com sua mãe Langsuir. Na península malaia, esses nomes, em algumas localidades, eram trocados, ora o Pontianak era a mãe, ora o inverso. A criança natimorto recebia o mesmo tratamento da mãe. Os malaios têm toda uma ritualística para proteger mulheres e crianças dos ataques de vampiros. O Penanggalan é um estranho vampiro, ou melhor, vampira, que tem o intestino e o estômago expostos. Ele voa sobre habitações atrás de crianças. Uma descrição interessante de um nativo sobre o Penanggalan foi tomada por Walter Skeat em seu livro Malay Magic. Vamos a ela. No princípio, o Penanggalan era uma mulher. Ela aprendeu as artes mágicas diretamente com um demônio, e se colocou a serviço dele com afinco. Passado o prazo acertado, ela pôde voar, ou parte dela, já que o corpo ficava, e apenas sua cabeça com os intestinos dependurados voava, em busca de sangue. Suas vítimas tinham como certa sua morte. Se uma pessoa tocasse o sangue que gotejava dos intestinos, contrairia uma doença séria e seu corpo ficaria repleto de feridas. As vítimas prediletas do Penanggalan eram as mulheres no parto. Para se defender, as portas eram fechadas e espinhos espalhados, nos quais a vampira prenderia seus intestinos. Na Polinésia, os vampiros deixavam as suas sepulturas para se refestelar com os vivos, devorando-lhes o coração. Além disso, feiticeiros comiam a carne do morto, criando dessa forma uma ligação com a alma do falecido, e essa ligação era usada contra as vítimas do feiticeiro, que então sugaria a vitalidade do vivo. Os mongóis foram um dos povos que atravessaram o Leste Europeu juntando suas tradições oculto ao já extenso folclore local. Não podemos deixar de pensar que os mongóis tiveram contacto com a Índia, Tibete, China, e uma infinidade de países entre a Europa e a Ásia. E sabemos com certeza que na sua mitologia havia entidades vampíricas. A entrada dos mongóis no continente europeu se deu pelas terras do Leste Europeu. LESTE EUROPEU. Montague Summers narra a viagem de três cavalheiros ingleses, em 1734, pelo Leste Europeu. Eles ouvem a narrativa do Barão Valvasor dizendo que algumas partes do país sofriam uma terrível epidemia de vampiros. Os cavalheiros escutam que os vampiros são os corpos de pessoas falecidas, animadas por espíritos que se esgueiram para fora das sepulturas à noite. Esses seres vivem de se alimentar do sangue dos vivos. Não há lugar mais associado ao vampiro que o Leste Europeu. Por mais que sejam religiosamente diferentes, eles dividiram uma mitologia e centenas de casos de vampirismo. Os primitivos eslavos tinham como divindade, dentre outras, Swetovid, o olho do mundo, deus negro, criador do bem e do mal. As cordilheiras dos Montes Cárpatos, desde Brabilow até a Valáquia e Saxônia, separavam-nos das hordas invasoras — os hunos, avaros e búlgaros. Se, por um lado, os Cárpatos não os deixaram ser destruídos, por outro, os povos que atravessavam a região propiciavam uma mescla de culturas e folclore. Eles tiveram uma grande mitologia ligada ao vampiro, que de uma forma ou outra influenciou e foi influenciada por povos vizinhos. Na Albânia, o Vampiro era conhecido como Kukuthi, Kukudhi, Lugat, Vorkolaka. Há a crença, na Albânia, de que se o vampiro não for descoberto, por mais de trinta anos, ele adquire a capacidade de andar à luz do Sol. Leva, a partir desse tempo, uma vida de humano, este é o Kukudhi. A sua destruição é ou pela tradicional via da estaca e do fogo ou pelos lobos. Fora esse tipo de vampiros, os albaneses também conhecem o Vrykolakas. Na Bulgária há o Vorkolaka, a alma de um criminoso que assombra o local de sua morte, atacando e sugando o sangue dos que passam nas imediações. O Vorkolaka é urna alma presa à terra, não podendo ir nem para o céu nem para o inferno. O local é liberto da maldição com cerimônias religiosas e erguendo-se uma cruz no local. Outra forma de vampiro na Bulgária é o Obour, que nove dias após seu sepultamento já emite seus primeiros sinais. A princípio como um fogo fátuo que brilha na escuridão; quando passa por uma luz, uma leve sombra é projetada. Depois disso, faz um enorme estardalhaço, agindo como um poltergeist, destruindo pertences das pessoas e cuspindo sangue. Após quarenta dias, o Obour adquire aparência humana sólida, podendo levar a vida de uma “pessoa normal”. Para destruir o Obour, ele deveria ser atraído por iguarias que lhe excitassem o paladar, como excremento humano, por exemplo. Isso era colocado dentro de uma garrafa, e quando ele entrasse nela seria arrolhado e destruído. Ícones sagrados podiam ser usados para compeli-lo a entrar na garrafa. Ustrel, de acordo com James Fraser em Ramo d'Ouw, é uma criança nascida num sábado, que morre sem batismo. Nove dias após o enterro, o Ustrel sai de sua sepultura e volta seu apetite contra um rebanho de gado que esteja nas redondezas. Quando está suficientemente forte, não precisa voltar mais à sepultura, morando nos corpos dos animais, ora nos chifres de um touro, ora no úbere de uma vaca, ora na lã de um carneiro. Para combatê-lo, os aldeões fazem num sábado duas grandes fogueiras numa encruzilhada, ossos são colocados por onde todos os rebanhos passam, e todos os outros fogos da comunidade são apagados. Quando a manada vai passando entre as duas fogueiras, o Ustrel se lança de seu animal hospedeiro e cai na encruzilhada. O local deve ser freqüentado por lobos, para que dessa forma a alcatéia destrua e devore o Ustrel. Os búlgaros também acreditavam que o vampiro podia deixar descendência, fruto do morto-vivo com uma mulher. Essa criança seria provida de dotes paranormais muito estimados para detecção e destruição do Vampiro. Na Eslováquia há o Nelapsi, um predador de gado e seres humanos, que pode trazer uma peste e dizimar populações inteiras. No distrito de Zemplin, os aldeões crêem que o vampiro tem dois corações e duas almas. As pesquisas sobre o Nelapsi foram feitas por Jan Mjartan em uma viagem ao campo em 1949, e os resultados foram publicados com o nome de Povery de Vampirskev Zempline. Na Polônia Oriental, o nome mais comum para um vampiro era Upier ou Upior. Os mesmos nomes podem ser achados nos países vizinhos da Ucrânia e Bielorússia. O vampiro polaco mantém estreita semelhança com os vampiros das nações vizinhas. “O oupire come a mortalha feita de linho, que o envolve, como primeiro passo de seu reavivamento. O oupire pode aparecer do meio-dia à meia-noite. A noite, ele ataca seus amigos e especialmente seus parentes, abraçando-os e sugando-lhes o sangue. O modo para destruir um oupire é exumar o cadáver e então decapitá-lo e abrir seu coração.” O sangue que escorria do ferimento servia para curar as vítimas dos ataques. Essa prática não se restringia à Polônia, já que na Romênia se comiam pedaços do vampiro, em especial cinzas do coração. Além do Upier havia a Upierzyca, sua contraparte feminina. Na exumação do Upier, o cadáver muitas vezes apresentava movimento dos olhos, língua e um bom estado de conservação geral. Além de devorar a própria mortalha, devorava inclusive partes de seu próprio corpo. John Heinrich Zopfius, em sua Dissertação sobre Vampiros Sérvios, de 1733, diz: “Vampiros vagam à noite, saindo de suas sepulturas, e atacam pessoas que dormem tranquilamente nas suas camas, sugam todo o sangue de seus corpos e os matam. Eles atacaram homens, mulheres e crianças, não poupando idade nem sexo. Esses que estão sob a malignidade fatal da influência dos vampiros reclamam de sufocação a uma deficiência total, depois das quais eles logo expiram. Alguns a quem, quando às portas da morte, foi perguntado se poderiam contar o que estava causando seu falecimento, respondiam que o morto retornou da tumba para retirar a vida dos vivos.” Para os sérvios, um lobisomem em vida seria um vampiro na morte, e assim os dois são muito proximamente relacionados. Alguns distritos pensaram até mesmo que pessoas que comiam a carne de uma ovelha morta por um lobo poderiam se tornar vampiros depois de morrer. Porém, os eslavos mantinham bem distintos os dois termos, sendo vampiro o morto que retorna para atacar os vivos e lobisomem alguém que se transforma em lobo. Havia também o Mahr que, ao que tudo indica, era a alma de alguém que retornava em busca de sangue. Poderia atacar parentes ou não. O Mahr, que podia inclusive estar vivo, causaria obsessão. O modo de destruí-lo é similar ao de outros vampiros, achando sua toca e expondo-o à luz solar, e cravando uma estaca em seu coração. Na Bulgária, são chamados Morava; na Polônia, Mora. AFRICA E PAÍSES COM INFLUÊNCIAS AFRICANAS. Na África, o fenômeno do vampirismo está intimamente ligado à magia e à feitiçaria. Contrariando a opinião de alguns autores, o vampiro era bem conhecido dos africanos, e para confirmar essa afirmação basta analisar a cultura africana e dos países onde houve influência africana, como o Haiti. Asasabonsam é um vampiro encontrado no folclore Ashanti, que vive no âmago das florestas e tem forma humana. Só é avistado por caçadores que se aventuram nesses territórios. Ele ataca puxando suas vítimas para o alto das árvores. Obayifo é um feiticeiro (a) que deixa seu corpo para sugar o sangue. As crianças são suas vítimas principais. Eles permanecem incógnitos na comunidade. Quando saem do corpo, fazem-no na forma de uma bola de luz. No Haiti, Luisiana e Jamaica, devido ao vodu e ao sincretismo (sendo o próprio vodu fruto do sincretismo), onde inúmeras influências se encontram culminando em uma tradição mágica poderosa e eclética, a figura do vampiro está intimamente ligada a práticas mágicas, com nítida influência africana. Em Granada, é chamado Loogaroo, uma corruptela de Loupgarou, lobisomem em francês. Os Loogaroos geralmente eram mulheres praticantes das artes mágicas. Todas as noites, elas saíam em busca do sangue de suas vítimas, deixando seu próprio corpo na forma de uma bola de fogo. Qualquer fresta já era suficiente para o vampiro entrar, mas uma maneira de desviar o ataque, mais uma vez, era colocar arroz ou outra semente qualquer, pois o Loogaroo ficara entretido contando. O Loogaroo ataca também a criação, em especial a de cavalos. MESOPOTÂMIA. Mesopotâmia, ou vale entre rios, no caso o Tigre e o Eufrates, foi o berço de inúmeras civilizações: assírios, babilônicos, sumerianos, acadianos, entre outros. Esses povos tinham uma extensa mitologia e demonologia. O enfoque dado até hoje em inúmeros tratados sobre demônios nos faz lembrar os mesopotâmicos. Para eles, os seres demoníacos eram terríveis, poderosos e assustadores. Dentre todo um demônio feminino terá vital importância para a vampirologia: Lilith. Montague Summers narra o conteúdo de uma plaqueta sumeriana em que Lilith é o tema. Fonte Desconhecida.