Medo da morte


Que os religiosos não espíritas tenham medo da morte, é até compreensível, pois deve ser extremamente tediosa uma existência onde não ajam ações, como aquelas que crêem que existirá depois do desencarne. Além do mais, a visão do sono profundo não deixa que este ser tenha a confirmação da existência da vida espiritual pós-morte. Os espíritas, no entanto, que possuem o conhecimento sobre as atividades extras corpóreas e as comprovações da existência desta vida, possuírem o mesmo medo, é algo inadmissível. Apesar de todas as transmissões da espiritualidade descortinando o véu do esquecimento, os espíritas apegam-se à vida material. Isto ocorre porque, tanto um quanto o outro ainda está preso à matéria carnal através de “elos”. O Espiritualismo Ecumênico Universal ensinou as “Quatro Âncoras”, ou seja, quatro grupos de aspirações que os seres humanos possuem que dificultam a sua elevação espiritual. Estas “Quatro Âncoras”, no entanto, são presas por “Quatro Elos”, que fixam o ser na vida carnal. É destes dois conjuntos que provém o medo da morte. Falemos um pouco sobre estes “elos”. A morte do ser humano Neste trabalho quando nos referimos à morte, não estamos abordando apenas o assunto “desencarne”, mas também o renascimento que Cristo ensinou a Nicodemus: “Eu afirmo que ninguém pode entrar no Reino de Deus se não nascer da água e do Espírito. A pessoa nasce fisicamente de pais humanos, mas nasce espiritualmente do Espírito de Deus. Por isso não se admire de eu dizer que todos vocês precisam nascer de novo. O vento sopra onde quer e ouve-se o barulho que faz, mas não se sabe de onde vem nem para onde vai. O mesmo acontece com todos os que nascem do Espírito”. (Evangelho de João – cap 03 – vers 05) O medo da morte física (desencarne) advém da certeza que, ao morrer, nascerá um novo ser: o espírito ou alma, como queiram chamá-la. É desta certeza que advém o medo da morte que o ser humano sente. O ser humano tem medo do processo de sua transformação em espírito, e, por isto, teme a morte. Ele teme a transformação porque tem medo da perda da sua identidade, ou seja, do seu “eu”. Entretanto, Cristo nos afirma que este “eu” material deve ser eliminado ainda na própria existência corporal para que se entre no gozo da felicidade universal. É preciso que o ser na carne “morra” (elimine o “eu” humano) para que renasça o espírito (a universalização dos conceitos) para alcançar o “Reino de Deus”. Este processo ficou conhecido como reforma íntima. Eliminar o “eu” é deixar de utilizar as propriedades intrínsecas do ser – inteligência, amor e justiça – com objetivos individualistas. Quando isto acontecer, o ser não será mais o que é, ou seja, não terá a mesma consciência que possui hoje. Este é o temor dos seres humanos: deixarem de ser quem são. A morte que estamos falando neste trabalho é exatamente o fim deste “eu” e isto não implica necessariamente em ter de sair da carne. É do temor da promoção da reforma íntima (fim do “eu”) que vamos falar. Para se processar a reforma íntima é preciso quebrar os quatro elos que aprisionam as quatro âncoras ao ser humano. Quatro Âncoras São os seguintes os quatro grupos de situações (“Quatro Âncoras“) que dificultam a elevação espiritual: Desejo de ganhar e medo de perder; Desejo de se satisfazer e medo da insatisfação; Desejo de ser elogiado e medo da crítica; Desejo de obter a fama e medo da infâmia. O ser humano é um ser universal que particulariza as suas propriedades intrínsecas: inteligência, justiça e amor. Esta particularização é representada neste ensinamento pelas quatro âncoras. O ser humano que deseja sempre ganhar, satisfazer seus desejos, ser elogiado e obter a fama, utiliza no processo raciocínio conceitos que objetivem este fim. Determina os padrões de justiça de acordo com o seu objetivo e, desta forma, ama apenas a si mesmo. As “Quatro Âncoras” levam o ser a não cumprir o segundo mandamento da “constituição universal” (amar ao próximo como a si mesmo), comprometendo a busca que ele vem realizar na carne: a evolução espiritual. É preciso que o ser livre-se destas amarras para poder navegar em direção ao porto da sabedoria, onde a utilização das propriedades é universal. Libertando-se das âncoras Para liberar-se das âncoras é preciso eliminar os quatro elos que as prendem ao ser. Sem quebrá-los é impossível livrar-se destas amarras. A quebra, porém, não pode ser feita individualmente, pois as quatro âncoras estão aprisionadas nos “Quatro Elos”: todos os elos aprisionam todas as âncoras. Seria impossível se libertar de apenas uma âncora quebrando apenas um dos elos. A reforma íntima, portanto, depende do ser quebrar os “Quatro Elos” para libertar-se das quatro âncoras de uma só vez, alcançando a universalização de suas propriedades e entrando no gozo da felicidade universal. Os Quatro Elos Baseado em um ensinamento budista. Suta Anguttara Nikaya IV.184 – Abhaya Sutta. Quando o brâmane Janussoni pediu a Buda ensinamentos sobre o medo que sentem aqueles que estão face à morte (fim do “eu”), o Iluminado apontou os “Quatro Elos” que aprisionam as “Quatro Âncoras”. São eles: A paixão pela posse moral (sensualidade); A paixão pelas coisas materiais (corpo); O individualismo (prática de coisas “más”); A falta de fé (incompreensão dos ensinamentos). Estes são os “Quatro Elos” que prendem o ser universal à visão ser humano, não permitindo a evolução espiritual. São eles que aprisionam o ser no desejo de ganhar, se satisfazer, ser elogiado e alcançar a fama. Primeiro elo O primeiro elo que prende as “Quatro Âncoras” que aprisionam o ser na visão ser humano é a paixão pela posse moral. O ser individualista imagina que apenas o que ele compreende das coisas é que está “certo”, é “bom” e “belo”. Tudo o que os outros acham diferente dele está “errado”, é “mau” ou “feio”. A posse moral se caracteriza pela detenção da “verdade”. A paixão por possuir a “verdade” sobre as coisas é que leva o ser a querer ganhar sempre, se satisfazer, ser elogiado e ficar famoso. O prazer gerado pela satisfação do cumprimento dos seus desejos é tão forte que Buda comparou-o ao prazer sexual. É por este motivo que ele fala deste elo como uma paixão sensualista. Quebrar este elo é abrir mão de possuir a “verdade” sobre as coisas. É preciso acreditar que todos os acontecimentos do universo estão perfeitos porque partem da Inteligência Suprema, observados os parâmetros de Justiça Perfeita e Sublimação do Amor. Este elo foi simbolizado na Bíblia Sagrada na história de Adão e Eva. A mulher foi tentada a comer a “maçã” (adquirir um conhecimento) para alcançar o poder de determinar o que é “bom” ou “mau” no universo. As religiões que utilizam a Bíblia como livro básico afirmam que é necessário acabar com o pecado original (o ato de Eva) para alcançar o reino do céu. Estão falando, portanto, da quebra do primeiro elo. Assim sendo, a informação da quebra deste elo não é exclusividade do budismo, mas também é ensinamento de toda religião que utiliza a Bíblia. Segundo elo O segundo elo que prende as quatro correntes é a paixão pelas coisas materiais. Chamamos esta paixão de posse. O prazer advindo da posse das coisas morais é que leva o espírito a ter medo de perdê-las, pois desta forma ficará insatisfeito, sentindo-se difamado. A perda é considerada uma crítica aos seus desejos. Para acabar com estes sentimentos é que o espírito precisa despossuir todas as coisas materiais. Para que isto aconteça é necessária a compreensão de que o universo é a casa de Deus e que tudo que aqui existe pertence a Ele. Se o universo foi criado por Deus para servir aos seres no seu processo de evolução, podemos afirmar que as coisas materiais são instrumentos para esta busca. Assim, enquanto o ser necessitar delas, o Pai as colocará à sua disposição, tornando-o “guardião” temporário delas. Portanto, se as coisas são instrumentos da elevação do ser, fazem da parte da “prova” que ele tem que fazer quando está encarnado para alcançar a elevação espiritual. Aprendemos na “Segunda Verdade Universal” da Doutrina Espiritualista Ecumênica que a prova é alterar a visão sobre as coisas, não vendo a forma, mas a essência. É baseado nesta Verdade Universal que Buda utiliza no seu ensinamento “a paixão pelo corpo”. Quem está preso a este elo se apaixona pela forma das coisas e não pela sua essência. Esta paixão é que leva à posse. Ao demonstrar que a vida carnal nada mais é do que uma etapa da vida espiritual, Kardec ensinou que o ser humano deve abrir mão das posses materiais para poder alcançar a elevação espiritual. O espiritismo, portanto, pede o fim do segundo elo. Terceiro elo Para Buda, o terceiro elo é a apreensão quanto ao resultado da provação que o ser faz durante a vida carnal. Pela consciência que possui de ter buscado apenas a sua satisfação pessoal ao invés de universalizar os acontecimentos durante a existência carnal, o espírito sabe que causou ferimentos aos demais seres. Pelo estudo, compreende que precisa expiar suas faltas seja em nova encarnação ou no “umbral”. Para fugir deste “destino” prende-se ainda mais à visão ser humano, imaginando que desta forma estará fora do alcance da ação justa de Deus, que só ocorrerá depois da “morte”. A expiação de erros é chamada de “carma”, ou seja, um acontecimento traçado no sentido de expiar o “sofrimento” que “causou” ao outro ser. O carma causa medo, porque o ser sabe que ele se constituirá de um acontecimento que não satisfará os seus conceitos, ou seja, não levará a um prazer individual. Fala-se muito em carma de vida passada, ou seja, expiações de situações de sofrimentos causadas em vidas anteriores, mas existe também o carma da vida atual. Este último, na maioria das vezes, é expiado nesta própria vida. Como no ditado popular, “aqui se faz, aqui se paga”. Deus providencia situações na vida do ser encarnado para que ele inicie a expiação de suas faltas nesta mesma vida. Apenas quando isto não é possível, o carma é transferido para uma próxima encarnação. Como o ser humano imagina que sua vida de encarnado independe da vontade de Deus, não compreende esta ação imediata do Pai. Aquele que entende Deus como Causa Primária das coisas vê a ação do Pai a cada segundo na sua vida perde o medo de carmas futuros, pois compreende nas situações que está passando a expiação de faltas desta mesma vida. Quem vê no Pai não um juiz severo que distribui penas, mas uma fonte de Amor Sublime que proporciona situações para que o ser possa evoluir, não tem medo do carma, quer desta vida ou de outra. Ao invés de sentir-se apenado, o ser participa da felicidade que é ter Deus como Pai. Portanto, a forma de se quebrar este elo é alterar a visão sobre Deus: não vê-lo mais como Senhor Onipotente do universo ou um Juiz Severo, mas um Pai Justo e Amoroso que só quer que os filhos consigam evoluir na sua existência espiritual. Este foi o ensinamento máximo que Cristo nos enviou. A “Boa Nova” trazida pelo Mestre é a compreensão da ação de Deus sobre seus filhos no sentido de proporcionar-lhes a entrada no reino do céu (felicidade universal). Quarto elo Este elo talvez seja o mais difícil de ser quebrado pelo ser, pois ele jamais será alcançado por comprovações materiais. Para alguns é mais fácil quebrar a posse moral; para outros, a espiritual ; muitos, ainda, conseguem perder o medo do carma, pois conseguem “enxergar” materialmente estes ensinamentos. O quarto elo, no entanto, jamais poderá trazer confirmações materiais, pois isto o tornaria mais forte e resistente. A fé é um sentimento que foi descrito por Cristo no primeiro mandamento da constituição universal: “amar a Deus acima de todas as coisas”. A fé é expressa através do amor incondicional ao Pai e a resposta de Deus aos seus filhos é a felicidade universal alcançada. Infelizmente não é esta a compreensão que os seres encarnados possuem da fé, pois eles a condicionam à satisfação dos seus desejos. Para amar a Deus (ser feliz), os seres humanos precisam de posses materiais, morais e de situações de não sofrimento. Não amam a Deus, mas a si mesmos. Para que o quarto elo seja quebrado, ou seja, para que o ser humano alcance a fé em Deus, é preciso que todos os outros três elos (posse moral e material e a não existência de situações de sofrimento) sejam mantidos. Como já explicamos, as “Quatro Âncoras” não podem ser eliminadas isoladamente, pois estão presas pelos quatro elos. Somente com a ruptura total destes elos é que o ser se libertará das âncoras. Ninguém deve amar outra pessoa tendo “motivos” para isso, pois o amor não pode ter condições. Quem ama o outro porque é “belo”, ama a beleza e não o ser; quem ama porque o outro é amigo, ama a amizade; quem ama pela cultura, ama a sabedoria. Em qualquer caso que exista uma condição para o amor, não há este sentimento pelo outro ser, mas pela condição que ele representa. Para quebrar o quarto elo o ser necessita não mais impor condições para o exercício do amor. A ruptura do quarto elo passa pelo fim da “fé raciocinada”, ou seja, pelo fim da análise do “prazer” que resultará do trabalho do ser. A quebra do quarto elo só será alcançada com a fé incondicional a Deus: entrega e confiança total no Pai. Para isto é preciso a perfeita compreensão dos ensinamentos deixados por todos os mestres. Nenhum deles criou condições para que se amasse a Deus, mas pediram que se tivesse uma fé incondicional no Pai. Todos os ensinamentos tiveram este objetivo, mas foram interpretados pelo ser humano de forma diferente, pois buscavam a satisfação pessoal. Quebrando os elos Para alcançar a elevação espiritual o ser precisa, então, quebrar os “Quatro Elos” para que se liberte das “Quatro Âncoras”. Este é o trabalho que o ser terá que fazer algum dia, pois como ensinou Kardec, todos os seres um dia terão que evoluir, independente de sentirem medo ou não. Este processo de transformação foi que levou diversos seres à elevação em uma de suas encarnações. É um processo inexorável que todo ser tem que passar. O medo de enfrentar o renascimento apenas retarda o momento, mas não pode eliminá-lo nunca, pois faz parte integrante da existência do ser, como a “morte física” faz parte da vida carnal. Além do medo do desconhecido (em que se transformará depois do renascimento) o ser tem o conhecimento inconsciente de que os “Quatro Elos” não podem ser quebrados passo a passo, mas que precisam ser rompidos ao mesmo tempo, o que exige um grande esforço. Por isto, encarnação após encarnação, o ser tenta quebrar os elos, mas não consegue se desfazer deles todos ao mesmo tempo. Todos os elos agem e são dependentes entre si. A posse moral nutre a posse material, pois o indivíduo “certo” quer determinar a forma das coisas morais. O fim destas duas âncoras depende exclusivamente do fim do carma, já que na maioria das vezes esta ação divina fere as posses do ser. Como perder tudo isso sem perder o amor a Deus? Compreendendo Sua ação no universo, ou seja, tendo fé. O ser que busca realmente quebrar os quatro elos precisa atacá-los todos de uma vez, abandonar o “poder” de determinar o valor das coisas, para poder abrir mão das posses materiais. Para isso precisa perder o medo do carma, amando a Deus mesmo que suas vontades não sejam satisfeitas. Existem dois instrumentos para esta ação: espiritualismo e ecumenismo. Para quebrar os quatro elos o ser precisa acabar com a divisão do universo em material e espiritual, pois esta divisão leva à busca da satisfação em um mundo (material), afastando para o outro (espiritual) a ação universal. Para colocar em prática esta visão, é preciso juntar os ensinamentos de todos os mestres em apenas um caminho para se amar a Deus. Como fizemos questão de frisar, todos os enviados de Deus falaram dos quatro elos e trouxeram os ensinamentos necessários para que eles fossem quebrados. O ser humano é que separou estes ensinamentos, quando afirmou ou entendeu que a elevação espiritual só seria alcançada trabalhando-se em apenas alguns deles. Mesmo a forma da ligação necessária com Deus para a quebra dos elos foi diversificada, pois já se entendeu que apenas a junção de todas elas facilitará esse trabalho. Alguns afirmam que o trabalho da elevação será alcançado recitando os textos sagrados (islamismo), outros com a meditação (orientais) e outros ainda através da oração (cristãos). Na verdade, a elevação espiritual só será alcançada quando se viver a vida material em meditação, recitando para si mesmo os ensinamentos que os mestres deixaram, a cada segundo. Esta vida é uma vida em oração, ou seja, vivida de acordo com as palavras dos livros sagrados. Tanto o espiritualismo como o ecumenismo leva o ser a universalizar suas propriedades intrínsecas, enquanto que o medo da morte surge do individualismo destas mesmas propriedades.


http://meeu.informe.com/medo-da-morte-dt168.html

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