Ramatis e a Codificação Espírita

Poe Sérgio Renan

A ‘torcidas do flamengo e a do corintias juntas’ sabem que o autor Ramatis é ‘fonte certa’ de polêmicas no meio espírita, parecendo mesmo um ‘divisor de águas’ separando os que lhe são contrários (alguns de forma enfática até demais!) e os que dele gostam (também aqui, alguns enfaticamente demais).

Tentando fugir destes extremos (mesmo eu já ser conhecido, no meio ‘orkutidiano’, como “ramatisiano” ... ainda vou descobrir que ‘nova seita’ é essa, o ‘ramatismo’... rsrs), tentarei relacionar os livros do Ramatis propondo uma possível ‘comparação’ entre seus escritos com o conteúdo da Codificação Espírita.

Pessoalmente já fiz tal ‘comparação’, e sinceramente nada achei que fosse contraditório. 

Obviamente, ‘comparei’ os livros que PODEM SER comparados, visto dentre os livros do Ramatis há aqueles falando de assuntosnão abordados pela Codificação Espírita (portanto ‘incomparáveis’ com esta), e ainda há aqueles que falam de assuntos abordados pela Codificação, mas sobre bases tão diferentes (Ramatis usa bastante modelos orientais para se expressar) que tal ‘comparação’ fica complicada, senão impraticável mesmo.


Apenas uma curiosidade: no meu caso, fora justamente por causa do Ramatis que vim a conhecer, e ler, a Codificação Espírita – a todo momento, nos seus livros, encontrava menções positivas à obra compilada por Kardec, e acabei indo conhecê-la!  (coisas da vida... tanta polêmica no meio espírita quanto ao Ramatis, e eu vim a conhecer a Doutrina Espírita justamente por causa dele, do Ramatis... rsrsrs)

Uma observação: Prefiro restringir-me aos livros do Ramatis através do médium Hercílio Maes. 

Sei que existem outros livros, ditos do Ramatis, por outros médiuns (relação a seguir), muitos deles inclusive eu gosto, mas reconheço existir ‘senões’ quanto a ter sido efetivamente o próprio Ramatis quem os fez. Nem discordando nem concordando com a autoria efetiva do Ramatis, prefiro deixá-los ‘de lado’ neste tópico, pois – nisso todos concordam – o Hercílio Maes foi, sem dúvida, o melhor ‘intérprete’ do Ramatis  (e o que mais polêmicas gerou no meio espírita, diga-se de passagem...)

--> Lista dos livros não pelo Hercílio Mães:

por Maria Margadira Liguori:

- O Homem e o Planeta Terra - 1999
- O Despertar da COnsciência - 2000
- Jornada de Luz - 2001
- Em Busca da Luz Interior - 2001


por América Paoliello Marques:

- Mensagens do Grande Coração - 1962


por Norberto Peixoto:

- Chama Crística - 2001
- Samadi - 2002
- Evolução no Planeta Azul - 2003
- Jardim dos Orixás - 2004
- Vozes de Aruanda - 2005
- A Missão da Umbanda - 2006
- Umbanda de Pé no Chão – 2008

Fiquemos assim com os livros do Ramatis através do Hercílio Mães, a seguir listados:

1. A Vida no Planeta Marte e os Discos Voadores - 1955
2. Mensagens do Astral - 1956
3. A Vida Além da Sepultura - 1958
4. Fisiologia da Alma - 1959
5. Mediunismo - 1960
6. A Mediunidade de Cura - 1963
7. O Sublime Peregrino - 1964
8. Elucidações do Além - 1964
9. Semeando e Colhendo - 1965
10. A Missão do Espiritismo - 1967
11. Magia da Redenção - 1967
12. A Vida Humana e o Espírito Imortal - 1970
13. O Evangelho à Luz do Cosmo – 1974

Existe um décimo-quarto, de nome ‘Sob a Luz do Espiritismo (Obra Póstuma)’, editada em 1999, mas que rpefiro deixar de lado, posto ser póstumo (obras ditas póstumas não costumam dar em boa coisa, haja visto a ‘Teoria da Beleza’ numa obra póstuma de Kardec...) 


Iniciando com seu primeiro livro (1. A Vida no Planeta Marte), considero este o “pior”, ou o “menos melhor”, dos seus livros. Para começar, foi lançado no meio da década de 50, quando então o Hercílio não estaria ainda ‘bem sintonizado’ como Ramatis (quem faz psicografias extensas bem sabe dessa dificuldade de ‘sintonização prévia’ entre autor e médium).

Digo “pior” (ou “menos melhor”) relativamente à forma final que o livro tomou, tendo muitas características (até mesmo opiniões) do próprio Hercílio ao longo dessa forma

Para comparar-se tal livro com a Codificação, creio ser difícil (salvo com interpretações sobre a primeira parte do ‘Livro dos Espíritos,’ quando se fala na origem de ‘espírito versus matéria’, mas mesmo assim seria uma interpretação, não uma ‘comparação’ efetiva). 

De qualquer forma, e bem viável comparar os relatos deste livro com vários relatos contidos ao longo da Revista Espírita 

Aqui, a mediunidade do Hercílio, no tocante à psicografia, merece uma atenção. À década de 50 estava-se vivenciando um ‘pleno boom’ de livros psicografados, ‘boom’ este iniciado por Chico Xavier (este sim, a “melhor antena viva”, como bem disse Divaldo Franco) e outros, quase duas décadas antes. E a psicografia era então compreendida entre os “extremos” de mecânica e intuitiva (tanto que desejava-se, CE´s a fora, a consecução da psicografia mecânica, objetivando a maior fidelidade nas comunicações).

Nesse meio, o Hercílio possuía a tal psicografia intuitiva, e, o que era mais uma ‘complicador’, o Ramatis não ficava ali do seu lado “ditando” (ou intuindo) frases ou mesmo palavras (como na maioria das psicografias não-mecânicas), mas sim lhe passava idéias, conceitos abstratos, os quais o Hercílio tinha de “se virar” para conseguir colocar em palavras tais idéias e conceitos. Além disso, Ramatis (como vários espíritos associados à ‘linhas orientais’) levava o Hercílio, em desdobramento, para que ele visse ‘com seus próprios olhos’, para depois então contar o que ‘viu’ no papel.Assim, o primeiro livro (1. Vida em Marte), para mim, foi mais um ‘treino’ no que qualquer outra coisa. 

Ainda mais, tenho para mim que o que Hercílio descreve, ao longo do livro, fora o que ele presenciou em plano mais sutil que o propriamente físico (ele projetado, presenciou habitantes no plano etérico, ou astralino nas suas camadas menos sutis), e, ao repassar ao livro, não teve ‘lucidez’ para deixar isso claro – podendo mesmo ele próprio ter acreditado ter visto coisas no plano físico de Marte –, talvez por falta de palavras para descrever isso de ‘vários planos’ (de novo, lembremos que os espíritas, à época, entendiam os planos extra-físico como ‘um só’, de nome ‘erraticidade’, isso quando entendiam...).

Quanto ao segundo e terceiro livro (2. Mensagens do Astral, e 3. A Vida Além da Sepultura), onde, agora sim começamos a ver uma sintonia crescente entre médium e espírito, tais livros expõem vários temas, interligados entre si mas vários temas!

Assim, o máximo que creio dar pra fazer (e eu o fiz), é procurar na Codificação (notadamente no ‘Livro dos Espíritos’ e na ‘Gênese’) conceitos doutrinários que embasem, ou contradigam, as abordagens contidas nesses temas nesses dois livros. Pessoalmente, repetindo, já fiz esse ‘procura’, e não vi nada que desabonasse os temas colocados por Ramatis 


O único ‘porém’ que coloco aqui, é quanto às chamadas “previsões” contidas no segundo livro (Mensagens do Astral). Pessoalmente NÃO VI previsão efetiva, mas mesmo admitindo-as, coloco a seguinte consideração:

* As datas foram ‘enxertos’ do próprio Hercílio, lembrando estar ainda em andamento a crescente ‘afinização’ entre ele e Ramatis. Muito aqui colocam que Ramatis deveria ter evitado isso, mas quem conhece os “gurus orientais”, sabe que eles deixam-nos livres, inclusive para errarmos; e mesmo assim, no final das contas, o resultado total foi positivo, não justificando ‘concertos’ por causa de detalhes.
No quarto livro (4. Fisiologia da Alma), agora começa-se a ver ‘ ‘cara’ do Ramatis, seu jeito direto e sem melindres de expor seus conceitos e suas idéias.

O livro fala da constituição ‘físico-energética’ do ser humano, fala de duplo-etérico, de corpo astral, associando-os ao corpo físico. Para um razoável entendimento dele, creio ser necessário algum mínimo de conhecimento sobre as teorias da setenariedade dos corpos humanos, teorias estas lá no Oriente.

Este livro criou muita controvérsia, devido ao tema vegetarianismo nele amplamente abordado (logicamente, o livro não é apenas sobre o vegetarianismo, ok?). Ramatis defende ostensivamente o não uso de carne na alimentação, entretanto não vi julgamento algum de sua parte a quem se alimenta de carne; vi sugestões para, se o sujeito quiser, ir parando de comer carne aos poucos, de forma comedida. 

Uma curiosidade que vi nesse livro, e que talvez tenha provocado ‘reações indignadas’, é quando ele compara o abate feito em alguns terreiros de Candomblé com o abate feito nos abatedouros modernos da atualidade (cheios de tecnologia da mais alta ponta): naqueles diz Ramatis serem bem ‘menos piores’ do que nestes, posto ser nestes (abatedouros modernos) a finalidade de extorquir dinheiro de quem deseja alimentar-se com todo requinte, fineza e talheres de prata.... (evidentemente, tal linguagem direta não agradaria a alguns rsrsrs)

Não vejo como ‘comparar’ este livro com a Codificação Espírita. No máximo, alguns ‘acréscimos’ ao ‘Livro dos Médiuns’, no tocante à necessidade de ‘cuidados próprios’ que o médium deveria ter para um bom mediunismo.

Já os quintos e sextos livros (5. Mediunismo e 6. A Mediunidade de Cura), na minha visão, indicaria suas leituras a todos os médiuns espíritas (“kardecistas”). Tais livros tratam, de forma bem prática com exemplos do ‘dia-a-dia’, sobre o exercício da mediunidade, trazendo várias luzes sobre o tema. 

Apenas como exemplo, existe no quinto livro (Mediunismo) um capítulo onde Ramatis descreve o duplo-etérico: a descrição, e explicação, mais feliz que já vi, feita ‘sob encomenda’ para alguém que não possui ‘viés oriental’, que não esteja habituado com os modelos lá do Oriente. Pessoalmente, já conheci vários espíritas que, ao lerem tal capítulo, esclamaram: ”até que enfim, consegui entender esse tal de duplo-etérico”
.
Até por causa dos nomes mesmos dos livros, compararia-os com o ‘Livro dos Médiuns’, e usando partes do ‘Livro dos Espíritos’, notadamente quando este fala na vida espiritual (do Espírito entre uma e outra encarnação).

No seu sétimo livro (7. O Sublime Peregrino), sua ‘segunda- obra-prima’, a meu ver), Ramatis traz uma visão bem ‘terra-a-terra’ de Jesus, abordando vários aspectos dele na sua vinda à Terra. 

Existem dois pontos nele que acabaram por ‘rachar’ o meio espírita da época, acontecendo mesmo de um presidente da FEB (Federação Espírita Brasileira), ao ser questionado sobre Ramatis, afirmar cinicamente que ”não conhecia este autor”. 

O primeiro quando Ramatis fala da dificuldade que Jesus teve para encarnar, dificuldades esta principalmente relacionadas ao tremendo esforço que ele (Jesus) teve de fazer para rebaixar suas próprias vibrações para que pudesse “caber” num corpo físico terrícola, pois tal Espírito já se encontrava, desde há muito, descomprometido de encarnações terrestres.

O segundo ponto, e aqui a ‘coisa ficou feia’, foi quando Ramatis fala de um tal ‘Cristo Planetário’. Muitos entenderam aqui que Jesus estaria ‘mediunizando’ outro Espírito de maior grandeza ainda, o que criou um ‘rebuliço’ nos espíritas de então. Curioso, é que neste mesmo livro Ramatis declara ter sido Jesus o Espírito de maior porte evolutivo que já havia pisado sobre a Terra!

Pessoalmente, não entendo bem como um mediunismo do ‘Cristo Planetário’ sobre Jesus; mas antes que Jesus, devido à ‘limpidez’ de seus corpos espirituais (conseguida após imensa evolução), permitia sua ‘Centelha Divina’, o ‘Atman’, manifestar-se com ampla liberdade, mesmo quando aqui no plano físico; coisa bem diferente de mediunidade exatamente. Mas creio tal abordagem não caber aqui, neste tópico
.
Creio ficar notório que tal livro é ‘incomparável’ com a Codificação Espírita, salvo como “adendo” ao ‘Evangelho Segundo o Espiritismo’, e mesmo assim no tocante à vida especificamente de Jesus.

Já os oitavo e nono livros (8. Elucidações do Além e 9. Semeando e Colhendo) podem ser bem ‘comparados’ ao conteúdo da Codificação Espírita.

Nestes, são abordados diversos aspectos da vida física associado à vida espiritual, sempre de forma ‘incisiva’ e ‘direta’ (Hercílio já estava ‘de posse’ de plena sintonia com o Ramatis).

Principalmente no oitavo (Elucidações do Além), Ramatis aborda bastante sobre a realização de reuniões onde se estuda, e/ou se exerce a mediunidade (condutas, como se deve e como não se deve fazer, cuidados necessários, etc), sendo portanto de GRANDE VALIA para os espíritas (“kardecistas”), tanto para aplicação ‘de grande porte’ (no Centro Espírita, por exemplo) como de ‘pequeno porte’ (Evangelho no Lar, por exemplo).

Assim, pode-se comparar tais livros com o ‘Livro dos Médiuns’, e com diversos conselhos de como formar-se um Centro de Estudo (embrião do hoje denominado ‘Centro Espírita’) que Kardec forneceu ao longo de sua obra, principalmente na Revista Espírita.

Chega-se ao seu décimo livro (10. A Missão do Espiritismo), cujo nome, na minha opinião, foi pessimamente escolhido. O livro possui vários capítulos, sendo cada capítulo dedicado a uma religião/doutrina. Portanto, apenas um de seus capítulos é sobre o Espiritismo, sendo os outros sobre Budismo, Cristianismo, e até Umbanda, dentre outras. (Ramatis praticamente nada falou da Umbanda, certamente por causa da época – década de 60 –, quando a Umbanda começava efetivamente a se firmar, e tornar-se popular enquanto uma religião própria... talvez dela falar criasse maiores dificuldades para a própria popularização da Umbanda).

Portanto, não vejo ‘comparação’ possível deste livro com a Codificação Espírita 


Outro livro ‘incomparável’ com a Codificação Espírita, é o de número 11 (11. Magia da Redenção).

Tal livro fala POR ALTO sobre ‘magismo’. Digo ‘por alto’, pois Ramatis NÃO adentra sobre fundamentos ritualísticos, e nem poderia....

Mas, em contra-partida, fala o suficiente para que os ‘incautos’ não imaginem não eCxistir isso de ‘feitiçarias’. Explica, de forma bastante simples, vários aspectos do que se chama, popularmente, de feitiçaria (ou ‘magia de baixo calão’).

Evidentemente, não vejo ‘comparação’ deste livro com a Codificação Espírita, pois sobre ‘magismo’ a Codificação ‘passou longe’, nada abordando (savo nas entrelinhas, e mesmo assim para ‘olhos treinados’ )

Seu pelúltimo livro (12. A Vida Humana e o Espírito Imortal), assim como os de números 2 e 3 (‘Mensagens do Astral’ e ‘A Vida Além da Sepultura’), ‘passeia’ por vários temas, interligados entre a ‘vida mundana’ (material) e a ‘vida espiritual’.

Assim, como coloquei para os livros 2 e 3, o máximo que creio dar pra fazer, é procurar na Codificação (notadamente no ‘Livro dos Espíritos’ e na ‘Gênese’) conceitos doutrinários que embasem, ou contradigam, as abordagens contidas nesses temas nesse livro.



Enfim, seu último livro (13. O Evangelho à Luz do Cosmo), para mim sua obra-prima, cujo título já indica seu conteúdo

Livro de magnífico conteúdo moral, podendo mesmo ser colocado ‘lado a lado’ com o ‘Evangelho Segundo o Espiritismo’ 


Abraços
Sérgio Renan

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